A malícia amorosa em “Os Enamoramentos”, de Javier Marías

Há quem fale de amor, sem se aperceber que nem sabe o que isso é, e há quem chegue a planear um assassinato, mas, mais tarde, nunca assuma, nem para si próprio, que fez planos para tal. Depois, há quem pense que sabe escrever sobre estes dois temas, mas nunca o faça com proficiência. E, após tudo isto, há “Os Enamoramentos”, de Javier Marías (ed. Alfaguara Portugal).

Com muita malícia e pouquíssima moral, uma receita deliciosa para um romance, Marías tece uma história amorosa, uma morte macabra que interrompe o quotidiano de uma mulher, com um nível de maestria invejável a 90% dos seus contemporâneos (lusos incluídos).

Em “Os Enamoramentos”, Maria Dolz, assistente editorial, é a nossa guia nos preâmbulos do pensamento do livro, uma “jovem prudente” que durante anos deleitou-se a observar o dia-à-dia de um casal num café, os seus momentos privados, até que Miguel Desvern, o homem, é esfaqueado pelas costas numa rua de Madrid.

Após o sucedido, Dolz acaba por entrar na vida de Desvern, conhece a viúva e o melhor amigo do falecido, com quem tem um caso libidinal, pouco amoroso, por causa da indisponibilidade emocional deste. Mas enfim: o enredo do livro é o menos, digamos; as virtudes Marías são outras.

Na prosa do escritor espanhol há algo de encantatório, um canto que não procura a eficiência, atingir um objetivo moral, mas simplesmente espraiar as possibilidades do pensamento da narradora do livro. Num século da prosa escorreita e cartesiana, Marías passeia na mente, não na acção.

Apesar de em nenhum momento o tema do assassinato seja tratado de forma apologética, ao estilo “Crime e Castigo”, “Os Enamoramentos” apresentam, estou em crer, uma das argumentações mais sublimes nesse mesmo sentido, sem nunca a pôr em evidência. Em pouco menos de 400 páginas, Javier Marías avança com uma lucidez profunda e pisa locais ousados – sem nunca fraquejar.

Esta passagem, por exemplo, é sublime:

“E não falemos já desses maridos ou mulheres que não se atrevem a abandonar o cônjuge, ou que não sabem como o hão-de fazer, ou que temem prejudicá-lo excessivamente: esses desejam secretamente que o outro morra, preferem a morte dele a enfrentar o problema e dar-lhe um razoável remédio. É absurdo, mas é assim: no fundo, não é que desejem qualquer mal e tentem preservá-lo de todos eles com o seu sacrifício pessoal e o seu esforçado silêncio (porque na realidade lho desejam com isso de o perder de vista, e ainda por cima o maior e irreversível), o que estão dispostos a serem eles a causar-lho, não querem sentir-se responsáveis pela infelicidade de ninguém, nem sequer pela dos que os atormentam com a sua mera existência próxima, com o vínculo que os amarra e que poderiam cortar se tivessem coragem. Mas, como não a têm, fantasiam ou sonham com algo tão radical como a morte do outro. ‘Seria uma solução fácil e um enorme alívio’, pensam eles, ‘eu não teria nada que ver com isso, não lhe causaria dor nem tristeza alguma, ele não sofreria por minha culpa, ou ela, seria um acidente, uma doença veloz, uma desgraça em que eu não seria visto nem achado; pelo contrário, eu seria uma vítima aos olhos do mundo e também aos meus, mas uma vítima beneficiada. E seria livre.

Para terminar, é de sublinhar que a tradução de Pedro Tamen é, e como já seria de esperar, ótima, mas há algumas gralhas (letras em falta) no texto que poderiam ter sido evitadas, revistas, principalmente tendo em conta que já existe uma versão de bolso deste mesmo livro.

Lidos “Os Enamoramentos”, talvez tenha chegado a hora de pegar no primeiro volume da trilogia “O Teu Rosto Amanhã”, de Javier Marías, que está algures perdido na pilha de livros por ler.

Por José H. Mateus, o crítico cultural de serviço

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