Rui Rio, o político sem qualidades futebolísticas

Suspeito que hoje em dia ser político inclua, obrigatoriamente, uma formação intensiva (licenciatura, essa manha burocrática do passado) em discurso desportivo e, em particular, está claro, em futebol. Suspeito, suspeitamos todos os que pensamos, devido ao que assistimos na televisão, dia sim dia sim.

Os sintomas estão à vista: os “painelistas político-desportivos”, para utilizar a verve de Bruno de Carvalho, proliferam por todo o lado – deputados, comentadores políticos, diretores de jornais, todos eles têm um bitaite a acrescentar à tagarelice (à bullshit) desportiva. Ainda na sexta-feira, vejamos, após o jogo com Marrocos, Marcelo, o always present presidente da República, foi até zona de flash-interviews comentar o jogo (péssimo, por sinal) e dar a tática para o seguinte frente ao Irão de Carlos Queiroz.

Suspeito também, admito-o agora, que a culpa desta proliferação não seja exclusiva da classe parlamentar portuguesa. Temo que estejamos a falar de uma necessidade que se tornou um vício. O político fala do que o povo, a população em geral, entendamos, fala, imiscui-se na tagarelice desportiva sem sentido, para que este note a sua presença, que o confunda consigo próprio, já que só por si não consegue mobilizar o mesmo sujeito – não poucas vezes – para o círculo democrático.

E assim, sem grandes esforços, chegamos a Portugal em 2018, onde já não há quase nenhum político que não tenha um comentário a dar sobre futebol, a situação desportiva que algum clube atravessa em determinado momento – a entrar na tagarelice coletiva do “povo”.

Em todo o caso, lembremos, sempre houve exceções a esta regra que estou a tentar pôr em evidência. Nas últimas décadas, por exemplo, dentro de certos círculos da esquerda caviar e direita conservadora, o futebol foi encarado como algo menor, um entretenimento básico. Mas foi muito raro o caso do político que repudiasse o desporto na praça pública, pois estaria, era quase certo, a perder votos.

Rui Rio é, por mero acaso, uma contradição deste perfil. O líder do PSD é tão alérgico ao futebol – exemplo disso são os anos que esteve à frente da câmara do Porto e as guerras que comprou com Pinto da Costa – como à cultura, ao snobismo moda Bloco de Esquerda, o que certamente não lhe ganha votos. Rio é um político sem qualidades desportivas, um político incompleto nos dias de hoje.

Pior que Rio só o cidadão sem futebol, aquele que vos escreve agora este texto, que à semelhança do político, é incompleto aos olhos de muitos daqueles que o lêem, por não conseguir apreciar 22 indivíduos a correr atrás de uma bola. Coitado dele; peço-vos, tenham pena, pois hoje joga Portugal.

Por Aquilino Reis, o comentador político de serviço

2 thoughts on “Rui Rio, o político sem qualidades futebolísticas

Add yours

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: