Biografia de um tinhoso

Filho enjeitado do famoso Barão de Teive e da semi-desconhecida Ofélia Queiroz, José Queiroz Teive, mais conhecido por Barão Tinhoso, nasceu pela nesga de um acidente cósmico: entre os instantes que antecederam o suicídio lúcido do seu pai, após a rejeição familiar da gravidez de sua mãe. A sua existência é, de certa forma, a verdadeira definição do acaso, o que talvez justifique o apreço do dito, desde cedo, pelo ocaso.

Seu pai, como é público, dizia-se um “milímetrista do pensamento”, mas, em boa verdade, não passava de um mui quilometrado da líbido, um braguilha aberta bem conhecido das ruelas da baixa lisboeta; estóico na teoria, semelhante a Catão só nos seus sonhos narcóticos. Como todos os grandes homens, ao longo dos séculos, o Barão de Teive efabulou sobre si sempre mais do que chegou a concretizar.

Crê-se dentro da família Teive-Queiroz que ainda sobrevive, mas não se pode afirmar com toda a seriedade, que o barão original emprenhou Ofélia por gula existencial, pouco antes de se suicidar; queria deixar o recém-nascido Augusto Teive como enteado a Nandinho Pessoa, sujeito belicoso e amigo íntimo do mesmo. A ser verdade esta tese, madame Ofélia jamais a confirmou ou deixou gravada pista qualquer nesse sentido num dos seus muitos diários – por questões de decoro, podemos supor, ou por simples pudor.

Nandinho Pessoa, porém, sempre foi pouco dado a compromissos, ninguém o convenceu do matrimónio forçado; durante alguns anos, o poeta cuidou do barãozinho, mas não deixou memórias a José Teive, pois este morreu também antes que a flor do passado tivesse desabrochado no jovem. Como testamento, sobrou-lhe um mera coincidência: ambos terem problemas de fígado, algo que poderá servir de justificação, desde cedo, ao feitio tinhoso do jovem barão.

Na época, para poupar a família Queiroz do vexame público da gravidez sem marido, Ofélia Queiroz foi mandada para o campo, para uma propriedade remota nas beiras, para lá ter o filho do Barão de Teive em segredo – e assim aconteceu; do interior do país, regressou passado quase um ano com um sobrinho afastado e desconhecido de todos os seus amigos, inclusive daquele que viria a ser o seu futuro marido, Augusto Soares; os pais de José Queiroz Teive haviam morrido num acidente e Ofélia comprometera-se a educar a criança como filho próprio – o que era, passo a redundância.

Desde tenra idade, José Queiroz Teive manifestou sintomas de tinhosice persistente: o humor ácido que atirava à face de professores e colegas de carteira valeram-lhe inimigos para a vida, propostas de trabalho em alguns matutinos; durante os seus estudos básicos, fez-se um admirador de literatura, mas não dos literatos que bailavam nos jornais, pois estes eram enfadonhos, escritores de panegíricos; na vida adulta, tornou-se um comentador atento da novela política nacional, divertindo-se com a sucessão de episódios daqueles que queriam por tudo fazer o bem, mas, de alguma forma, acabavam sempre por perpetuar o mal.

Quando veio a público a sua verdadeira filiação, já este tinha uns 50 anos, ganhou o nome de Barão Tinhoso. Nem por acaso, durante quase quatro décadas, tinha assinado crónicas das mais variadas áreas com mais do que um pseudónimo, teses contraditórias e, não poucas vezes, polémicas.

Como sempre foi incapaz de se comprometer com qualquer causa, José Queiroz Teive não fez propósitos, acabou por ser rejeitado por todos, alvo de escárnio da nação; nunca deixou de ser um homem sem filosofia ou religião, pois em nenhum momento conseguiu encontrar nenhuma das duas dentro de si.

Dado aos contrários e aos indizíveis, ao repúdio daqueles que possuem personalidades consistentes e constantes, o burguês tinhoso, já na reforma, acabou por sofrer os frutos da sua bílis negra – um grandessíssimo par de chapadonas da sociedade, foi excomungado do meio-literário, e destinado, sem dúvida, a ser um escritor maldito. Hoje em dia, vive no campo; diverte-o o desporto, que vê sentado na sua poltrona de cabedal, juntamente com o cão Orpheu; adora especular, quando está enfadado pela realidade.

Por vezes, vê o fantasma de Álvaro de Campos a cirandar, de bloco na mão, no meio da sua quinta, no meio das giestas, mimosas e pedregulhos. Nunca teve coragem de o inquirir sobre o que anda naqueles ermos a fazer.

Por Manuel Esteves Telúrico, biógrafo e escriturário do Barão Tinhoso

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